(In)color


Foi tudo um grande engano

Um estranho escondido sob o pano

Me mostrou o que não queria que eu visse

Não me disse qual era seu plano

Só se expôs pra que eu, então, sentisse

Meu futuro já não é tão mais visível

O plausível não me toca, nem me chama

É difícil ser só eu no infinito

Está prescrito o amor, ninguém mais ama

A ilusão é o óbvio, estava escrito,

Nas estrelas em constelações estranhas

Formas brutas, inconceptas, o invisível

É a cor que permanece em minha entranhas

O amor não é risível. Presente tão rarefeito

O que me queimou por dentro não mais chama

 Amor não é receita, nem conceito

Amor é som de mar no peito

É caminho estreito pra quem ama

 



Escrito por Camila Trindade às 21h16
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Saudade é sem tamanho, sem medida

Maldade é limiar, saudade é vida

Saudade é felicidade já sentida

É ressentir amor que já passou

Sem ser saudade ressentida



Escrito por Camila Trindade às 02h30
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Roda Gigante

Plantaram ali os prantos da vida que têm no morrer também seus soluços. Sem pedir licença pro ateu ou pra crença, os ciclos completam a sua jornada. Rebentos choram anunciando o novo, lágrimas molham o rosto da fé. A morte ronda vários leitos, o medo aflige vários peitos. A fé se embrenha nas mãos e nas macas onde a ciência fez seu lugar. O orgânico é morrer quando não se pode respirar. O natural é nascer quando é o tempo de chegar. Mas ali também se renasce, se redescobre o viver. Não se aceita o morrer. Nem o tal fim da estrada. O que todos querem é a luz no fim do túnel. Um choro de criança que nasce, um choro pro adulto que morre. O velho que renasce, a criança que morre. A roda da vida.



Escrito por Camila Trindade às 22h29
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O tédio tem sido o meu companheiro mais presente. Ando irritada e ausente, ando sem sentir que ando. Meio desligada, meio repetente, meio repetida, na levada do quando. Um tanto descontente com a vida, um tanto persistente, perdida. Um medo médio-ausente me dá vontade de ir de encontro ao nada... e nada me impede. E nada me amarra, nem cede. Tudo me comove, me move, mesmo sem sentir que sente. E numa irritação latente, o mundo me bate e me afaga. Me sustenta e me traga. Me faz contente em meio ao incerto que vaga, que mede, que nada... que nada.  



Escrito por Camila Trindade às 18h47
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Sentidos

 

Teus cabelos são os arvoredos ...
e os meus medos perdem os sentidos
e meus sentidos são todos seus

 

minhas sinas, meus segredos
o som hoje em meus ouvidos
seus olhos moram nos meus
Não tem que fazer sentido
Eu sei que esse meu sentido
irá pra onde for o seu

 

 

Carlos Galdino/ Camila Trindade



Escrito por Camila Trindade às 18h11
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Retalhos de quase amores

 

Adornadas consciências silenciosas

Ornamentos mudos de um coração oco

De tanto se render às rifas amorosas

Contentou-se com o pedaço, a lasca, o pouco

 

Um canto de sorriso dado à revelia

Breves olhares, abraços furtados

As caças de bocas, os lábios do dia

A melancolia do amor mal amado

 

Tenta completar-se nas paixões vistosas

Que exalam febres tensas, gritos roucos

Que povoam causos, credos, versos, prosas

E ofertam rosas pro provável equívoco

 

Outro novo rosto pra dizer bom dia

Outra nova história entre seus bordados

Mais um rosto costurado na fotografia

Semblante da alegria inconstante e sem cuidado

 

No breu do noturno, mesmo acompanhada

Arrefecidas lágrimas em seu peito pousam

Sente-se querida sem sentir-se amada

Usou, foi usada, ousou com os que ousam

 

O choro brotado de olhos atentos

Escorre pela mansa face da espera

Esperando que surja entre seus tormentos

A beleza incandescida, súbita primavera

 

Mas é consciente de sua vida esquina

Onde param tipos soberanos e inquietantes

Que lhe alimentam a alma fresca de menina

Prendendo-lhe à rotina dezenas de amantes

 

Esconde no armário as frustrações não findas

E, à sua forma, sua causa e efeito

Junta os retalhos das paixões bem-vindas

Tiras coloridas, pares imperfeitos.



Escrito por Camila Trindade às 00h33
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Figurinhas

Amar, na imensidão azul onde há o que há de haver. E haja o que ouvir. E haja o que eu ver. E vir. E, ao mar, a melhor metade do sentir. O inteiro é o que está por vir. Porvir do que há de haver. Haja o que houver, o que vier, ouvir e ver. O mar é amar, e amar é mar, é.



Escrito por Camila Trindade às 20h06
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Coordenadas

Contudo, venho de bolsos vazios

Entretanto, pouco me comove

Todavia sem rumo quase me convence

Tudo é mais completo com junção

Mas nem.



Escrito por Camila Trindade às 00h08
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Perspectiva

Pintar com cal verde

meu pedaço de parede

na cidade vertical.



Escrito por Camila Trindade às 23h55
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Revistas

Estava ali, de novo

Perdendo um olhar no meio do povo

Pulsando o pulsar do seu pulso

De longe, fingindo que não

 

Será que ser só,

Ser só é ser tão,

é sina de ser solidão?

 

Te ver reacende

O que já não transcendia

A mediocridade do silêncio

O olho no vago suspenso

O olhar e fingir que não olha

 

De novo vem o anúncio

Da foto que a retina escolhe

Como placa de sentido

E o coração dá ouvido

Pro que o olho procura

Mas que a timidez recolhe

Na imensidão do vazio



Escrito por Camila Trindade às 22h27
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Coadjuvante da Presunção

 

 

 

Lá vai o poeta

Sem meta,

Mas com padrão

Estético

Senhor esteta

Com sua caneta

Nem sim, nem não

Hipotético

Experiente, lascivo

Romântico, impulsivo

É o que melhor reflete

Asséptico

Fastuoso e permissivo

Vaidoso, sempre vivo

Pra se mostrar vedete do

Poético

E diz-se mais

Diz-se melhor

Um porte

Atlético

Indispensável nos jornais,

Indiscutível como for

Não se mensura seu valor

Aritmético

Seu mundo é tudo

que no umbigo,

seu grande amigo,

se faz

Hermético

A presunção, propagação

Carrega a arte na sua mão

É da vanguarda, da tradição

Sim, tão

Eclético

Do inconsciente coletivo

Sempre o mais equânime

Dele e pr’ele unânime

Dístico  

É predicado, adjetivo

seu ego de um vigor tão, tão altivo

o impossibilita perceber

Que é tão...

Patético.

Tão patético!



Escrito por Camila Trindade às 01h51
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Casa e Comida

Achou de cortar-me as asas
de me fazer em retalho
ê, moço que dá trabalho
querendo arruinar-me a vida
dizendo para mim: "casa
que eu te dou casa e comida"
Disse eu então, vá de retro
que nunca te pedi teto
nem pão, nem nada que o valha
só quis seu amor sem veto
sem trabalho, só afeto
não quis eira, beira ou calha
Devolva-me meu par de asas
e eu saio da sua casa
sem que notes minha saída
e ofereça a outra zinha
sua casa, sua cozinha
e seu modelo de vida
.



Escrito por Camila Trindade às 13h13
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Esperança

Eu esperei com paciência. Fiquei sentada à sombra de um devaneio, esperando na esperança de que você viria. Viria para esperar comigo o cair da aurora, para contar estrelas, imaginar desenhos nas nuvens. Eu esperei que você me reconhecesse parte dos seus sonhos, esperei que você entendesse que, sim, eu queria dividir minha vida contigo, minha vida inteira. Eu esperei na janela uma serenata, esperei seus lábios, esperei uma única palavra que, sim, seria precedida de outro sim. Eu esperei, na esperança de que todas as palavras que você fabricou fossem pra mim. Eu esperei que as dádivas do amor não fossem tão inúteis quanto hoje se fazem, esperei que músicas dissessem o que eu precisava ... o que eu precisava dizer literal e bruscamente. Esperei que a sutileza dos poemas fosse suficiente. Esperei, esperei... esperei sob a ótica dos apaixonados que seus óculos um dia me enxergariam, esperei que meus olhos fossem abertos com a ternura de um beijo. Esperei que você descobrisse os caminhos por si só. Esperei a iniciativa, a tentativa, a declaração.

Eu esperei que o amor viesse numa cesta de piquenique, esperei que a certeza da felicidade fosse notória, esperei que você soubesse ler nas entrelinhas. Esperei vigiar teu sono nas noites de inverno, te abraçar sempre que o mundo me pusesse medo. Esperei ter seus ouvidos para meus sussurros, teus gritos de satisfação. Esperei que fosse fácil, óbvio e inegável o que nunca deixou de ser apenas esperança. Esperei versinhos tolos de namorado apaixonado, mesmo no alto da sua capacidade poética e sensível. Esperei um momento em que o mundo pudesse acabar em chamas ou sob precipitações torrenciais e a gente não se importaria. Esperei um banho de chuva na rua, risos tolos entre estranhos cheios de certezas. Esperei histórias pra dormir contadas na sua voz tímida. Eu esperei até vê-lo jogar bola com filhos que esperei ter com você. Que bobagem... Esperei que a sua timidez pudesse vencer a minha. Esperei você em altos de morros, lugares distantes... esperei sua presença até nas improbabilidades onde estão as multidões. Esperei seu olhar, sempre seu olhar, que me fazia feliz e me garantia a possibilidade de poder esperar. Esperei que acontecesse, que você dissesse, que a gente fosse mais que dois olhares perdidos. Esperei seu beijo depois do longo abraço. Esperei tanto, esperei chegar a hora do encontro... Mas hoje descobri que esperei demais.



Escrito por Camila Trindade às 01h50
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Pendão da esperança

Cal, corante, anilina

Céu anil pintado ao chão

Guias verdes e amarelas

Por todo lado um pendão

 

Nos guetos, as serpentinas

Balançam ao vento vão

Por todo beco e viela

Há uma pintura amarela

E um verde na contramão

 

Bandeiras tremulam tolas

Sua plástica fé soberana

Projetam o futuro em bolas

Chuteiras, solados, solas

Da alegria suburbana

 

E como se por esmola

Um sorriso o vento abana

Esférica a graça rola

Na praça, no poste, na escola

Tapera, barraca, cabana

 

Cada um com sua cota

De verde, amarelo, anil

Tingindo com conta-gotas

A ficção que desbota

Nas calçadas do gentio

 

A alegria que se fez

Nacionalista, febril

Acaba no fim do mês

Descolorida essa tez

Volta a ser cinza o Brasil.

 



Escrito por Camila Trindade às 21h05
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Gato na caixa de energia elétrica...

 

Porque nem sempre é fácil decifrar o óbvio.

 

www.flickr.com/photos/camilatrindade



Escrito por Camila Trindade às 14h47
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