Esperança

Eu esperei com paciência. Fiquei sentada à sombra de um devaneio, esperando na esperança de que você viria. Viria para esperar comigo o cair da aurora, para contar estrelas, imaginar desenhos nas nuvens. Eu esperei que você me reconhecesse parte dos seus sonhos, esperei que você entendesse que, sim, eu queria dividir minha vida contigo, minha vida inteira. Eu esperei na janela uma serenata, esperei seus lábios, esperei uma única palavra que, sim, seria precedida de outro sim. Eu esperei, na esperança de que todas as palavras que você fabricou fossem pra mim. Eu esperei que as dádivas do amor não fossem tão inúteis quanto hoje se fazem, esperei que músicas dissessem o que eu precisava ... o que eu precisava dizer literal e bruscamente. Esperei que a sutileza dos poemas fosse suficiente. Esperei, esperei... esperei sob a ótica dos apaixonados que seus óculos um dia me enxergariam, esperei que meus olhos fossem abertos com a ternura de um beijo. Esperei que você descobrisse os caminhos por si só. Esperei a iniciativa, a tentativa, a declaração.

Eu esperei que o amor viesse numa cesta de piquenique, esperei que a certeza da felicidade fosse notória, esperei que você soubesse ler nas entrelinhas. Esperei vigiar teu sono nas noites de inverno, te abraçar sempre que o mundo me pusesse medo. Esperei ter seus ouvidos para meus sussurros, teus gritos de satisfação. Esperei que fosse fácil, óbvio e inegável o que nunca deixou de ser apenas esperança. Esperei versinhos tolos de namorado apaixonado, mesmo no alto da sua capacidade poética e sensível. Esperei um momento em que o mundo pudesse acabar em chamas ou sob precipitações torrenciais e a gente não se importaria. Esperei um banho de chuva na rua, risos tolos entre estranhos cheios de certezas. Esperei histórias pra dormir contadas na sua voz tímida. Eu esperei até vê-lo jogar bola com filhos que esperei ter com você. Que bobagem... Esperei que a sua timidez pudesse vencer a minha. Esperei você em altos de morros, lugares distantes... esperei sua presença até nas improbabilidades onde estão as multidões. Esperei seu olhar, sempre seu olhar, que me fazia feliz e me garantia a possibilidade de poder esperar. Esperei que acontecesse, que você dissesse, que a gente fosse mais que dois olhares perdidos. Esperei seu beijo depois do longo abraço. Esperei tanto, esperei chegar a hora do encontro... Mas hoje descobri que esperei demais.



Escrito por Camila Trindade às 01h50
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