Pés em poças

 

Sempre gostei muito de andar descalço. Quando criança, me sentia extremamente satisfeita assim que meus pés sentiam a aspereza do asfalto, as cócegas causadas pelas pedras no chão de terra, os vãos entre os paralelepípedos... Ah, como eram boas tais sensações!

 

 Quantas vezes esfolei o dedão na guia e voltei a brincar,  com chinelos por imposição de minha mãe, após enfiar o pé no tanque, embaixo da torneira, e amarrar o ferimento com um pedaço de pano qualquer. Mas os chinelos logo viravam trave de gol, marcavam as linhas do “rouba bandeira”, ou eram simplesmente abandonados na sarjeta... Pés no chão. Diretamente no chão. Sem barreiras de borracha ou couro, sem medo de infecções ou pudores impostos por possíveis reações de outros.

 

Mas mesmo gostando tanto, havia esquecido o valor de cada pisada sem tênis que minimizam impacto, sandálias que dão firmeza ao pisar ou calçados anatômicos e ortopédicos. Minha reestréia no mundo dos descalços voluntários nunca teve data marcada, aconteceu de um imprevisto, de um mero acaso. Originou-se da minha falta de coordenação motora... Num sábado chuvoso, em plena Avenida Paulista.

 

Um par de sandálias quase arrebentando é um risco que eu sempre faço questão de correr. Na chuva, um risco potencializado.Caminhei sob uma garoa fina por um bom tempo, até que a tal garoa virou chuva torrencial. Recuei até o ponto de ônibus pelo qual havia passado há uns trinta segundos. A chuva passou ... Eu fui... e meu pisante também se foi. Meus pés, “tão ágeis”, foram traídos pelas poças d’água.

 

Eu estava perto do Masp, caminharia até a Consolação, como faço todos os sábados religiosamente. Um pé do meu par de sandálias arrebentou, me deixando com ambas nas mãos, até jogá-las na primeira lixeira que encontrei. Meus pés passaram a tocar o revestimento cinza da calçada. Segui meu caminho de cabeça erguida, pisando no chão encharcado, atravessando faixas de pedestres, sentindo a aspereza do asfalto, os vãos entre as plaquetas de piche da nova passeio público da avenida. A água penetrava entre meus dedos. Ah, como era boa tal sensação!

 

Caminhei, como de costume, até a Consolação. Curti cada passo como se ainda fosse um costume, cultivado desde a infância, descalçar os pés para participar das brincadeiras na rua. Observei a rua. Observei outros pés, que diferentemente dos meus, estavam calçados, protegidos do frio e privados da oportunidade que eu tinha naquele instante... Caminhei até chegar em uma loja de sapatos. Entrei e comprei um All Star.  O All Star que simboliza os pudores do mundo adulto, calçado.

 

Mas caminhei, descalça, por mais de um quilômetro. Sem pudores, sem perceber olhares. Pés no chão. Diretamente no chão. Sem barreiras de borracha ou couro, até encontrar uma loja de sapatos na Avenida Paulista.



Escrito por Camila Trindade às 01h00
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