Natal de parafuso em bolas que quicam
Ele corria entre os carros da avenida movimentada. O guri tinha olhos esperançosos, queria pegar a bola que minutos antes ele mesmo quicava no asfalto cinza da zona industrial da cidade, mas ela, de tão leve, foi levada pelo vento. Uma mulher gritava atrás dele, apavorada. Após esforçar-se em uma corrida veloz, muitos metros ladeira a baixo, a bola é encontrada pelo garoto: murcha,furada por um parafuso de metal.
Triste, ele pensou em voltar à fila; uma fila imensa que dobrava o quarteirão. Pensou e foi, ficou de novo atrás de toda aquela gente à espera das esmolas natalinas. Eram cestas básicas, brinquedos baratos, sacolas com pão e leite. De onde surge essa gente? Pra onde vai tanta fome? Na porta da firma, a espera angustia as crianças que querem ver o velho Noel, responsável por distribuir lembranças aos pequenos.
Mas Papai Noel de pobre é menos lúdico: demora pra chegar, grita para que o povo espere e faz a distribuição às pressas... dá presente igual para todo mundo. Nada de cartinha, de reclamação, de reivindicação, de nada! É bom pegar o brinde e se fazer por contente, senão ano que vem não tem mais. "-Mãe, mas eu não pedi essa bola, eu queria uma bicicleta". "-Pedido? Ah, menino, quica essa bola, come esse pão".
Hoje ainda nem é Natal, mas a fila já dá a volta no quarteirão. O dono da firma dá tchau da parte de dentro do portão. Tantos sorrisos banguelas lhe esboçam satisfação. "- Brigado, Dotô". "- Não há de quê". Claro que há... Não! Espírito natalino, esta é a alcunha que se dá à ação do empresário do ramo metalúrgico, homem que acostumou o povo das redondezas aos mimos motivados pela bondade cristã. O mesmo empreendedor que, do alto de sua benevolência e justiça, mantém em regime quase escravo muita gente daquela comunidade.
Gente que recebe um dinheiro praticamente nulo para lascar as mãos em encaixes de peças de metal destinadas a instalações elétricas; um serviço feito em casa, normalmente por mulheres que têm como ajudantes os filhos pequenos: Cada milheiro de parafusos encaixados dá direito a uma migalha por dia. O caminhão da fábrica deixa as caixas nas casas e pega ao final do expediente. Dia e noite trabalhando a juros baixos.
Mas no fim do ano o velhinho sempre vem. Vem com suas bolas de plástico, suas bonecas carecas, seus carrinhos de cores complexas e com rodas faltando. Traz também as cestas básicas que promovem um natal sem fome, tão pequenas que possivelmente nem durarão até o Natal. Oferece pão e leite. E as crianças sorridentes e feias estendem as mãos nanicas, já calejadas, para receberem mais migalhas que formam o pão de parafusos. Mães e pais afoitos disputam as caixas de papelão que garantirão a ceia. E o patrão furta-lhes os sorrisos, um furto de gratidão.
Esboçando cáries e banguelices, meninos quicam bolas pelo quarteirão. Quica bola, tanto quica até que fura... num parafuso de metal furador de bolas... calejador de pequenas e grandes mãos.
O amor é indefinido, amar define. Porque amar é infinitivo, infinito,
mesmo quando desejamos as ações de seu gerúndio. Amando amar
infinitamente, nas temporalidades de seus advérbios. Amando amar
infinitamente, gerundianamente neologisticamente.
O amor é indefinido, o amar cria. Porque só amando se define o amar. Só
amando amar se faz poesia.
E se eu quisesse definir o amor, diria que só é possível ao amar. Seja
qualquer tipo que se ame, no imperativo, ame você.
Agora já acabou. Já foi saudade, já veio susto de não ver mais quem se via, ouvia, dizia. Quem fazia e não fazia. Já foi. Já veio o que antes não vinha, não tinha. Aquilo que antes não me cabia, que se continha e hoje sobra. Não via. Não havia o que quer que se queira dizer, ou dizia. Não faz diferença. Não dá tempo de fazer o que se queria e não se tinha... coragem. Não há tempo para amores que podiam ter sido de ontem e hoje são sós, restos de retratos jogados à brisa.
...
Ela foi hoje contar estrelas junto de minha mãe. Contar estrelas e jogá-las cadentes, para que a gente peça coisas impossíveis quando virmos luzinhas caindo do céu. Sei que de lá, onde quer que seja lá, ela olhará por mim, por nós... E unirá ao timbre de minha mãe a sua voz. Juntas num coral terno protegerão seus descendentes carnais.
Dê um abraço em minha mãe por mim, vó. Diga a ela que eu ainda a amo. Cante a ela uma canção de ninar, com a mesma voz linda e serena com a qual ela cantava pra mim. Acaricie seus cabelos de nuvem e deixe-a tocar sua face. Porque saudade de mãe é coisa que dói demais. Eu sei o quanto dói. Eu sinto que corrói num desgastar constante meu coração que já não aguenta mais doer. Vó, diga pra mãe que eu vou continuar cantando pra manter vivo em notas tudo o que ela me ensinou. Aperte ela por mim num abraço longo. Mate sua saudade, porque a minha só faz doer.
Porque amor e saudade são coisas que crescem com o tempo. Só crescem, e crescem, e crescem... às vezes doem. Mas, sempre, crescem.
Você tem fome de quê?
- Vai ter música, tio?
- Vai, vai ter música, vai ter poesia...
- Vai ter verso!?
- Vai, vai ter.
- Então é ‘nóis’ (cumprimentam-se com um gesto de mãos fechadas).
Esse é um diálogo real entre um garoto de, no máximo, dez anos e um dos organizadores do evento no qual fui hoje. Na plateia, gente de todas as idades aguardava o início do filme: um documentário sobre o poeta cearense Patativa do Assaré.
... Porque a gente não quer só comida. A gente quer comida, diversão e arte.
O menino, dois olhares
Seus olhos me mostraram que os meus olhos refletem em suas retinas. Mas e essas cortinas sutis que rebatem a luz artificial da noite? São vidrilhos laminados a acortinar o mistério? Palavras poucas trocadas num forte abraço. Seus olhos procuram os meus. Será!? A neblina do céu é cinza, a brisa levanta a nuvem. Sopra no meu ouvido seu verso mais véu de sal, só pra eu sentir o vento que vem do céu. Chama meus olhos para mergulhar nos teus, de frente, sem nada que os impeça. Eu peço, se você der um passo... eu peço um abraço mais longo, teu beijo de noite ardente. Eu passo, passo na sua frente ou fico bem lá no fundo, entre outras escondida. Podemos fazer um trato, sem contrato de gaveta, sem ditames de guarida. Hoje lhe dou a chave de tudo que chamo mundo e você vem, de mansinho, adentrar na minha vida.
Ser tão assim, ser humano
Ser assim, sempre tão sempre assim. Achando-se impassível e potente. Sempre incólume e consciente, vendo defeitos em tantos outros iguais, mas cego quando em frente ao espelho. Ah, ser humano impróprio e insistente, exerce o medo no outro como cura aos seus temores, sob a tutela da cara de pau imprecisamente lustrada. Embaixo das asas da mentira, ser humano é pecar e se redimir com pecúnia em dízimo; É invocar um deus que se entende por submisso por perdoar erros vis acobertando-os com bênçãos. É questionar atos falhos quando o errar é humano e persistir no equívoco ao descobrir o modo mais correto e sensato, só pelo capricho de não dar o braço a torcer.
É se acomodar no sossego incômodo de grandes assentos almofadados, enquanto cobre as têmporas alheias com dedos acusadores em forma de revólver... E cada passo em falso passa como verdade, pé ante pé. Passadas firmes num vagar sobre areia. Mosca presa numa teia malfeita e pacata.
Se há sinceridade assim como existem homens de bom coração - os mesmos homens alheios ao alheio, proeficientes em frieza e cálculos infames -; se realmente existem seres humanos conscientes e responsáveis, que estes me mostrem sua capacidade além premeditação. Porque ser humano é algo vago na inexatidão de grandes dias, são homens e mulheres presos em nuvens frias, que mostram sua insegurança em gestos novos de caos. Ser humano abrange os furtos de gratidão, a espera pela ausência de alguém e a vontade de esconder vontades em prol de vontades de outrem. Ser humano é ser inexato como as listras das zebras da vida. É ser duvidoso como as horas que atrasam no relógio da praça onde o bêbado profeta diz coisas que fazem sentido, mas que você se recusa a acreditar porque o interlocutor é apenas um ébrio qualquer.
Ser humano é ser metade de tudo à procura do completar-se pela simples necessidade de faze-lo. É obrigar-se ser completo mesmo num imenso vazio. É conjunto de sentimentos esparsos e dissonantes. Ser humano. Ser completo por linhas tortas, tons fusos e semifusos de ilusão. Confusos de sua existência, ilesos de qualquer culpa porque assim querem ser e fazer. Ser humano é ser prolífico, profícuo de benfazeja ausente. Ser humano é ser hipócrita. Doente dessa mesma hipocrisia que cresce a partir dos meus dedos espertos.
Eu faço arte sem fazer parte da corja que forja artistas de marte
com causas escusas por sobre o mormaço.
Eu faço o que eu quero querendo o retrato que não seja apenas o que me retrate, mas parte das forças vorazes do som.
Alguns querem fama, eu só quero o dom, a fertilidade do verso cantado.
Tantas vezes bobo, sem pressa, rimado. Tantas vezes forte como a ventania.
Já não vejo graça na vil tirania de felicidades ligadas em falso, em seus cadafalsos eletrificados.
Nem me atraem as regras ditadas em cursos, no exibicionismo de coisa nenhuma.
Eu quero cantar Zumbi, revolta e fúria. Descontrole, volúpia e mais do amor liberto,
pois o que é certo é o equívoco aceito, o que dói no peito é nota que dissona.
Minha insônia vazia se preenche com a soma que se dá entre música e
poesia.
Aí vai um texto jornalístico que escrevi ano passado para a ONG Círculo Palmarino, entidade que luta em prol da causa negra.
A matéria trata sobre o Centenário do "Poeta do Povo", Solano Trindade.
Ah: Antes que me perguntem: Eu, apesar do sobrenome, não tenho parentesco com Solano. Infelizmente. rs
Cem Anos de Solano Trindade
Centenário do “Poeta do Povo” trás à tona versos escritos no século passado que tratam de problemas como pobreza e desigualdade racial
(...) “Eita negro!
- Quem foi que disse que a gente não é gente?
Quem foi esse demente, se tem olhos não vê.”
“Conversa”, Cantares do Meu Povo, 1961.
Por Camila Trindade
O poeta carregava na pele negra as motivações de sua luta. Mas a epiderme do artista não era o único motivo. A causa era maior, era da maioria. Era a fome amontoada na maria fumaça da Leopoldina. Estava nas caras tristes e cansadas que lotavam os vagões da locomotiva logo de manhã, os rostos que, no mesmo trem, seguiam tristes e exaustos ao entardecer. Francisco Solano Trindade, que completaria 100 anos em 24 de julho de 2008, cantava em seus versos a realidade dos morros, as mazelas de um país adepto do racismo cordial. As situações acima, presentes no cotidiano de milhares de brasileiros até hoje, tornam os textos do “Poeta do Povo” incontestavelmente atuais e fazem do centenário deste artista mais que uma data comemorativa.
Solano nasceu no bairro de Bom Jesus, em Recife, Pernambuco. Filho da quituteira Emerenciana e do sapateiro Manoel Abílio, viveu em um lar católico, apesar de seu pai incorporar entidades às escondidas. “Meu avô se fazia de católico na frente dos outros, mas eu o via dentro do quarto virar no santo e falar ioruba”, afirma a folclorista, artista plástica e escritora Raquel Trindade, filha de Solano.
O poeta não tinha religião nenhuma até conhecer sua primeira esposa, Margarida, que freqüentava a Igreja Presbiteriana. A paixão pela mulher com nome de flor levou o artista ao caminho religioso. “Uma negra me levou a Deus”, cantou em uma de suas poesias. Solano chegou ao cargo de diácono na Presbiteriana, mas abdicou da vida cristã ao perceber que a instituição religiosa não se preocupava com as dificuldades enfrentadas pelos negros, nem com os problemas sociais. “Baseado em um versículo da bíblia que diz ‘Se tu não amas a seu irmão a quem vês como podes amar a Deus a quem não vês? ’ ele saiu da igreja”, explica a filha do artista.
De cristão presbiteriano o poeta passa a militante comunista assim que chega ao Rio de Janeiro, em meados da década de 40. Após filiar-se ao partido de Luiz Carlos Prestes, Solano Trindade fez em Caxias a célula Tiradentes na qual se reuniam operários e camponeses. “Papai tinha um caixote de cebola que ele fazia de estante. Lá estavam juntos a Bíblia e O Capital, de Karl Marx”, relembra Raquel.
Por sua poesia carregada de significado e em virtude de seu engajamento político, Solano foi preso duas vezes pela ditadura militar do Estado Novo. Na primeira oportunidade, estava em um comício e foi solto logo. Entretanto, na segunda vez, levaram-no à cadeia os versos da poesia Tem Gente Com Fome, publicada no livro Poema de Uma Vida Simples, de 1944. O poeta ficou desaparecido por alguns dias. “Os policiais chegaram revirando tudo, dizendo que ele guardava armas em casa. A polícia o levou e o manteve incomunicável, minha mãe de prisão em prisão procurando por ele, até que o encontramos em um presídio na Rua da Relação (RJ)”.
O Partido Comunista também não supriu as necessidades igualitárias de Solano Trindade. Segundo Raquel, para os correligionários do poeta o problema do negro era só econômico, não racial. Descontente, o artista se desliga das atividades políticas, mas já no fim da vida. “Apesar de tudo, papai morreu socialista.”
O Poeta do Povo
A preocupação de Solano era o povo. Grande parte de suas obras são voltadas à valorização da cultura negra e à luta contra a desigualdade social e racial no Brasil. Mas as mulheres também tiveram espaço entre os versos do poeta, como pode ser observado no texto Linda Negra, do livro Cantares do Meu Povo, de 1961. “Naquela Noite/ ficou o teu olhar branco/ vagando no escuro/ entre ternura e medo/ teus olhos grandes/ dançavam como loucos/ na música do silêncio”. “As grandes musas dele eram o povo e as mulheres”, afirma Raquel. Solano casou-se três vezes e teve seis filhos, todos com sua primeira mulher.
Além de poeta, Solano Trindade era artista plástico, teatrólogo, ator e com a primeira de suas três esposas, Margarida da Trindade, aprendeu o ofício de folclorista. Foi na companhia de Margarida, e do etnólogo Edson Carneiro que, em 1950, ele funda o Teatro Popular Brasileiro – TPB. O casal Trindade ainda ajudou Aroldo Costa a montar o Teatro Folclórico, rebatizado posteriormente como Brasiliana.
Contrariando o que dizem muitos sítios na internet, o poeta não participou da fundação do Teatro Experimental do Negro. Segundo Raquel Trindade, o TEN foi criado por Abdias do Nascimento. “O Abdias tinha os parceiros dele, mas nenhum era papai”, pontua.
Na mídia pouco se houve falar de Solano Trindade. Não era, e ainda não é, conveniente tocar nas feridas não cicatrizadas da história. “Para a mídia é muito complicado, amedronta falar sobre Solano Trindade”, explica a filha do poeta.
Tem gente que continua com fome. O trem sujo segue carregando as caras tristes sem destino que esperam a próxima parada. E os versos do Poeta do Povo permanecem atuais, fazendo eco nos becos.
Solano das Artes em Embu
Em 1961, recém-chegados da Europa, Solano e um grupo com mais de trinta bailarinos estavam em São Paulo para a apresentação de um espetáculo, quando receberam do escultor Claudionor Assis Dias, o Assis do Embu, um convite para visitar a cidade paulistana. Assis já havia falado sobre Solano Trindade a outro escultor, Tadakio Sakai, ao qual propôs mais contato com o poeta para que Sakai levasse às suas obras a temática negra. A “caravana”, na qual também estava a família de Solano, aceitou a proposta de Assis, que fez as vezes de anfitrião hospedando o grupo em sua casa. “Todo mundo dormia amontoado na sala”, conta Raquel.
Além de Sakai e Assis, já estavam em Embu artistas como a pintora Azteca e o também escultor Cássio M’Boy. Com a chegada de Solano, montou-se um movimento artístico coletivo no “Barraco do Assis”. “Eles começaram a fazer festas que duravam três dias, faziam espetáculos na rua, exposições na rua, tudo isso em 1961”, relembra a folclorista. Essas manifestações ajudaram a dar origem ao nome Embu das Artes, que fez do município paulistano um lugar conhecido internacionalmente.
Em Embu, Solano virou nome de uma rua no centro expandido da cidade. Nesse mesmo município, sua filha Raquel criou o Teatro Popular Solano Trindade e, juntamente com ela, netos e bisnetos do artista cuidam para que a memória do Poeta do Povo permaneça viva. No Recife, cidade natal do escritor, uma estátua de Solano em tamanho natural, feita pelo escultor Demétrio, encontra-se no Pátio de São Pedro. No Rio de Janeiro, uma biblioteca leva seu nome e no Museu Afro Brasil, dentro do Parque do Ibirapuera, em São Paulo, uma foto (“feia”, na opinião de Raquel) e um quadro relembram o artista. Seus poemas transpuseram fronteiras, fazendo com que ele conquistasse admiradores em países como Tchecoslováquia e Polônia.
Solano faleceu em 1974, aos 66 anos, no Rio de Janeiro, para onde voltou já doente. Foi sepultado no Cemitério da Pechincha, em Jacarepaguá, ao contrário do que dizem relatos recorrentes de que o poeta teria sido enterrado como indigente. “Minha mãe e minha irmã fizeram para ele um enterro decente”, afirma Raquel Trindade.
Tem Gente com Fome
Solano Trindade
Trem sujo da Leopoldina
Correndo, correndo, parece dizer
Tem gente com fome, tem gente com fome
Tem gente com fome, tem gente com fome
Tem gente com fome, tem gente com fome
Tem gente com fome
Estação de Caxias
De novo a correr
De novo a dizer
Tem gente com fome, tem gente com fome
Tem gente com fome, tem gente com fome
Tem gente com fome, tem gente com fome
Tem gente com fome
Tantas caras tristes
Querendo chegar em algum destino
Em algum lugar
Sai das estações
Quando vai parando começa a dizer
Se tem gente com fome, dá de comer
Se tem gente com fome, dá de comer
Se tem gente com fome, dá de comer
Se tem gente com fome, dá de comer
Mas o trem irá todo autoritário
Manda o trem parar
- Shhhhiiiii!
Publicado originalmente em: www.opalmarino.com.br/tuneldotempo
Também pode ser encontrado nos sites: http://www.circulopalmarino.org.br/noticias/cem-anos-de-solano-trindade-por-camila-trindade/?searchterm=camila trindade e http://www.socialismo.org.br/portal/arte-cultura/77-artigo/523-cem-anos-de-solano-trindade
Uma lupa
Eu preciso de uma lupa pra enxergar meus pequenos desejos.
Quero aumentá-los em nome da fome por seus beijos,
quero carícias potencializadas em lunetas.
Lupa que nada, te quero ver no cheio da caneta,
entrecortando a cegueira esteta
que mora sob o gélido caderno de domingo.
Que cada pingo de tinta azul e preta
transforme em busca solta cada letra
a se juntar num furacão reverso.
Enquanto eu vingo meu amor careta
da caretice onde ora submerso,
mergulho em sonhar minha verdade em pingos
de vida inteira chorando no teu verso.
Ontem
Hoje eu pensei tanto no ontem, tanto como nunca antes havia pensado. Pensei em tudo que eu poderia ter feito, mas não fiz. Nas coisas que deveria ter dito, mas não disse. Nos equívocos que relutei tanto pra não cometer, mas cometi. É engraçada a vida e suas peças, suas tramas, suas teias. É engraçado o gesto vago com o qual nos encontramos sempre que há arrependimento, seja ele pelo motivo que for.
Eu tantas vezes me pego assim, escrevendo textos de auto-ajuda, os mesmos que, quando de outros, não suporto nem ouvir falar. Está aí mais um dos meus equívocos e inexatidões: esta imensa capacidade de falar, mas fazer exatamente o oposto.
Talvez seja esse meu medo de ser patética, quando ser patética é ser assim, como eu sou... Com esse grande medo das coragens que rodeiam os seres humanos, estas coragens envoltas em pequenos poderes, em frágeis moldes de astúcia, em gotículas de perdão revestidas por mágoa.
Ah, se fosse tão fácil fazer o que eu quero sem ligar para os moldes sociais, às contas imorais, aos cultos além-alma. Se realmente fosse fácil ser menos calculada, mais vulgar, menos vulnerável. Se fosse sincero como é óbvio, se fosse estranho como é exato. Ah, se fosse...
Se bastasse calma à cura, sensatez à lealdade. Se bastasse só sobrar o que é melhor.
Eu surto, passo, despeço e cresço sem saber. Envelheço patética, sou essa, aquela e aquém de tudo o que eu poderia ter sido, mas não fui ao ser.
Malditas palavras bem ditas
Eu não te conheço direito, nem nunca lhe dei atenção. Como pôde desse jeito preencher meu coração?
Fora alguns versos desditos, nunca lhe disse sim nem não. E nas teias do meu peito sinto meu ar rarefeito por esse amor sem razão.
Choro à noite sua falta, uma ausência que me mata, mas nunca preenchida por ti. Ela é profunda e tão pacata, tão absurdamente barata, piegas, clichê e sempre presente aqui.
Sei que as letras são culpadas, absurdas, mal amadas me iludem sem ter porquê.
Seu recitar é tão belo, tão verde com amarelo, tão como deve ser.
Ah, absurdo da vida. Feito louca ensaio a despedida para quando vir me ver. Ouço o som da sua voz, cujo tom nunca ouvi, mas que me lembra você.
Suposições
Quando se esgotarem as palavras belas
E as piedades de amor sinceras
Quando se fecharem todas as janelas
E se calarem bocas, se tirarem roupas, se trancarem feras
Quando se fizer silêncio seu vocabulário
E seus gestos raros forem só flores austeras
Quando alguém roubar de ti aquele relicário
E seu ser estiver preso em tantas poucas celas
Quando seu futuro depender de mim
E sua preguiça estiver de sentinela
Quando seu assado ser só meu assim
E não me reste mais que o aceso da vela
Saiba que, sem mais, estarei aqui
Esperando o quando que quiser na tela
E mesmo quando o quando se der conta que parti
Quando a luta ganha me demonstre que perdi
Estarei criando mais palavras belas
Ou abrindo bocas, ouvindo vozes roucas, libertando feras
Estarei tirando do armário suas roupas velhas
Pondo pra quarar sua preguiça amarela
Ou tentando abrir, sem vocabulário, suas janelas
Dona Jussara varre a calçada
E tenta ver a hora num relógio digital
Passa a hora, passa a tarde, a vida passa
No compasso de um minuto desigual
Varre depressa, devagar fecha o portão
Olha pros lados, com cautela, sem destreza
Dona Jussara presta muita atenção
E se protege do perigo à redondeza
Volta ao relógio sua atenção comum
Espera insone pela voz da Tele-Sena
Pula o canal, ziriga lá, ziriguidum
Senta ao sofá e pestaneja a cena
Ela, Jussara, acredita na justiça
Pouca vergonha bichas que se beijam
Suborno e furto, caso de polícia
Esconde a cara pra que não a vejam
Esconde o rosto pro menino preto
Que pede esmola na ponta do sinal
Deu dez reais pra bajular seu neto
Que há pouco roubou seu relógio digital
Eu quero meus dias de volta
Eu quero meu dia de volta. Minhas cortinas, minhas lembranças. Eu quero meu bem querer, meu mal querer, minha cura. Eu quero o veneno dos seus olhos mirando o horizonte dos meus medos. Eu quero a gente, o cerne do seu ser. Eu quero o contra, o mel das suas palavras mais sem sentido. Eu quero a crueldade inerente ao seu melhor jeito de amor. Quero as castas de sua promiscuidade e a divindade de tudo que é seu e mais pagão.
Eu quero você, imperfeito. Todas as suas maluquices esquisitas, todos os seus subterfúgios bobos. Eu quero o seu desprezo que disfarça a falta, a sua empáfia infantil, seus dogmas sem lei. Eu quero você, mesmo que seu emblema não me caiba. Mesmo que as vidas que nos rodeiam sejam hoje mais importantes que um amor que sequer existiu como tinha que ser. Eu quero você. Seus dias de barba por fazer, seus enigmas desvendados, seus discursos conhecidos mais secretos. Eu quero ser sua cicatriz profunda e perene, pois você já é minha tatuagem, meu vício, meu pesadelo sutil e mais amável. Você é meu, apesar de nunca ter sido só meu.
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